30 de jan de 2009

Extensão e afinação de theremins

Vamos responder duas dúvidas frequentes:
  1. Qual a extensão de um theremin?
  2. Como se afina, e quais as afinações mais comuns?


EXTENSÃO TOTAL AUDÍVEL

http://1.bp.blogspot.com/_4aduPNm0tyk/SuyQ6X3F6iI/AAAAAAAAA8s/zm3xaJHRK58/s1600/extens%C3%A3o.jpg
clique para ampliar


Isso mesmo, um Moog Etherwave Standard ou similares como o RDS são capazes de realizar pelo menos 8 oitavas, indo aproximadamente do E0 (20Hz) até E8 (5300Hz), ajustando a sensibilidade pelo botão Pitch. Dá pra ultrapassar o piano mole mole, fácil fácil. Note-se que não há 2 instrumentos idênticos, e que o instrumento depende de equipamentos adequados e de condições ambientais para o pleno funcionamento. Eu baseei a estatística grave pela percepção de fundamental usando bons amplificadores para baixo, e não encontrei ninguém que identificasse uma fundamental muito abaixo de 20Hz.

Os extremos grave/agudo, tendo por referência a extensão do piano (e algumas notas além, nos dois sentidos), são de difícil acesso e musicalmente pouco usados. O extremo agudo qualquer amplificador realiza, mas normalmente soa muito percussivo / gritante na maioria dos theremins. Para ir mais que uma oitava abaixo do dó central (C4 - 261.63Hz), precisamos de um amplificador específico para contrabaixo - doutra forma fica difícil fazer solos em registro de baixo, pela qualidade sonora inferior ou simplesmente por não soar como uma fundamental, mas como um ruído - às vezes uma irritante motocicleta rítmica.

RESPALDO:
1) O tereminista espanhol Victor Estrada diz que musicalmente dificilmente vamos abaixo de 30Hz (B0) ou acima de 4KHz (C8):
http://web.mac.com/estudioserin/theremines/Funcionamiento.html
2) O tereminista do Mississippi, Thomas Grillo, diz que o Etherwave Standard normalmente é afinado em E (o meu também é, por isso escrevi acima):
http://www.youtube.com/watch?v=MJEbIMOfAMg

Por uma questão de conforto e até mesmo de musicalidade, é recomendado compor/tocar essencialmente dentro das três oitavas clássicas, que são usadas desde os primeiros theremins, contando a partir do dó grave da viola, uma oitava abaixo do dó central, até o "high C" ou "soprano C",  ou seja: toque de preferência entre C3-C6. Mas se os ouvidos pedirem uma ultrapassagem, fique à vontade.

Uma vez fiz um vídeo demonstrando umas 7 oitavas do theremin. Acho isso desnecessário, mas se quiser ver muitas oitavas, clique aqui, eu tocando a toa. Quem ouve Lydia Kavina eventualmente verá ela se exibindo com seu super TVox Tour por umas 8 oitavas...

E, pros menos informados: hoje em dia não se compra um theremin que tenha menos que 5 oitavas de "fácil" acesso. O padrão está subindo para 6+, e não duvido que em breve seja comum se vender/comprar apenas theremins que prometam 7 oitavas ou mais. O nome disso é "histeria da extensão", comum entre cantores e agora também comum entre tereministas. Muita gente quer ter muitas notas graves e agudas e esquece de pensar na qualidade do som em si.

Mas como eu ia dizendo, hoje em dia as propagandas normalmente dizem que os theremins dão acesso fácil à extensão de um teclado de 5 oitavas, do C2 ao C7 (65Hz - 2093Hz), como a imagem a seguir demonstra:



Na prática, tudo depende da afinação, ou seja, de como você configura a sensibilidade da antena vertical (a vareta). O botão Pitch determina basicamente três coisas: o tamanho do campo elétrico tocável, o espaçamento entre as frequências e os extremos grave-agudo.

Existe também a afinação interna, uma forma de calibragem que deve ser feita por um profissional de eletrônica que requer abrir o theremin e reconfigurá-lo (só em caso de defeito ou situações de mau funcionamento, campo elétrico impraticável, botão pitch não respondendo, etc.). Fora isso, a "afinação externa" (comum) se dá pelo botão pitch. Trataremos dela.



PARÂMETROS DE AFINAÇÃO

Afinar um theremin não envolve apenas escolher notas graves ou agudas como limite ou como referência para tocar. Ao afinar o instrumento, a distância entre as notas aumenta ou diminui, assim como a dimensão do campo elétrico utilizável, e pra piorar isso tudo não é uniforme (existem zonas de distorção onde os intervalos se esticam ou contraem mais, e nem todos os theremins possuem boa estabilidade).

Você pode pensar em afinar a sensibilidade da antena de frequência do seu theremin de acordo com vários parâmetros. Vou citar os mais comuns:
  • Espaçamento das notas, tamanho de uma oitava, etc. - pensando conforto pra dedilhar, ajustando de acordo com seu corpo, braço, antebraço, mão e dedos. Na prática, uma oitava normalmente é ajustada de acordo com a distância entre seus dedos fechados e abertos. Você pode também ajustar o semitom para a menor distância que você consegue articular com domínio entre seus dedos (5 milímetros para regiões centrais é uma boa).
  • Nota mais grave - a nota mais grave a ser utilizada deve estar no seu peito ou ombro. Em alguns casos, é a solução.
  • Nota mais aguda - a nota mais aguda a ser utilizada deve ficar bem próxima da antena (mas não o suficiente para você correr o risco de encostar nela). Algumas vezes é bom cortar pela afinação as notas demasiado agudas que não serão necessárias para uma música.
  • Extensão total a utilizar na peça - um meio termo entre a afinação pela nota mais grave e a afinação pela nota mais aguda (exemplo: se é três oitavas, expandir essas três oitavas por toda extensão de seu braço, deixando o extremo grave no seu peito e o extremo agudo mais próximo da antena o possível).
  • Nota[s] da antena, ou seja: selecionar a frequência aguda que ocorre em caso de contato físico, encostando na antena de um Moog ou outro modelo de theremin que o permita. Boa pra efeitos especiais e experimentalismos. Note que depende de como você toca a antena ela gera frequências diferentes. Se der chiado, é defeito do instrumento, tente colocar fitas plásticas na base da antena ou compre um theremin que não chie ao encostar nas antenas.
  • Você pode combinar esses fatores ou pensar em apenas um deles na hora de afinar.
  • Em alguns casos, o compositor especifica na partitura quais os parâmetros de afinação ou até mesmo de calibragem [interna] do theremin. Nesses casos, você não tem nem muito o que fazer além de seguir as instruções.

Se não for possível afinar conforme sua necessidade, o instrumento poderá precisar de uma calibragem ou de "maquiar" essa deficiência com interferências metálicas ou de objetos pequenos. Ambos os casos - levar para um profissional calibrar e usar objetos como interferência - são muito comuns pra qualquer um que toque theremin de verdade. O meu RDS Theremin nunca teve alteração de calibragem, mas em alguns casos utilizo um CD próximo à antena vertical para obter afinações diferentes. Theremins duram décadas sem precisar de manutenção, mas se após um ano de uso ou após uma viagem aérea seu theremin precisar de uma calibrada ("afinação interna"), procure um profissional e não se desespere, costuma ser fácil de resolver - embora seja uma operação delicada e requeira precisão milimétrica.

Pensar nisso tudo pode ser decisivo pra sua prática instrumental. Um dos maiores problemas de quem tenta aprender tocar theremin é não saber afinar o instrumento primeiro! Como se já não bastasse o instrumento ser invisível e impalpável (um legítimo campo elétrico), a pessoa tenta aprender sem nem afiná-lo primeiro! Por essas e outras, theremin só se aprende mesmo com profissionais.


AFINAÇÕES COMUNS DE THEREMINS MOOG

Vou descrever as afinações mais comuns para theremins padrão. Eu domino as três, para leituras à primeira vista ou improvisação. Os nomes das afinações se baseiam nos botões giratórios dos theremins Moog Etherwave, ou seja, o controle de Pitch deles, como se fosse um relógio marcando horas. Serve para o RDS Theremin e pra outros modelos também. Note que, dependendo da calibragem do seu theremin, não vai bater a descrição do "ponteiro", mas você vai achar o ponto a que me refiro pela descrição.


http://www.theremin.com.br/imagens/painel_gde.jpg

"9 horas"
Afinação "Garklein", apenas para imitação de flautim ou passagens extremamente agudas no repertório específico de theremin. Normalmente tocamos pequenos trechos nessa afinação, requerendo alguns segundos pra afinar o instrumento durante a peça, antes e depois do trecho agudo (whistles). É boa também para imitação de passarinhos e outros efeitos especiais.
Extensão tocável com qualidade e controle: C6-D8
Com técnica extendida ampliamos para E8-G8 (modificando o instrumento, encostando na antena, etc.). Se o instrumento for muito bom, permite até algumas notas mais graves, nas quais mulheres, crianças e outros corpos menos densos têm vantagem.


"1 hora" (ou "12 horas", dependendo do instrumento)
É a afinação central, mais utilizada para performances em geral, pegando bem a extensão do violino e da voz feminina. Para repertório específico de theremin pode ser um pouco complicada por requerer muitos movimentos de pé e de corpo inteiro, mas tem a vantagem de permitir acesso a algumas notas acima do C7 e um espaçamento maior entre as notas. É quase um padrão pra música popular.
Extensão confortável: F3-F7
Dando um passo atrás: indefinido, em torno de A2. Com muitos movimentos de corpo, até a primeira oitava é acessível com dificuldade.


"3 horas"
Essa afinação permite com conforto dó grave da viola, é a mais utilizada no repertório erudito para theremin, praticamente um padrão para quem toca no extremo grave ou repertório virtuoso. É normalmente a mais recomendada para theremins com problema de linearidade (na maioria das vezes irá requerer a interferência de um CD ou pedaço de metal próximo à antena, demorando mais pra pegar afinação).
Extensão acessível com muita facilidade: C2-D7
ou C1-D7, dependendo de sua massa e volume corporal. Dando um passo pequeno atrás: controle fácil da oitava do C1 ou até mais grave, perfeito pra solos de baixo com rapidez e precisão, sem grandes esforços.



VOCÊ SABIA...?
Que modificando a antena de um theremin você muda totalmente o campo elétrico (afinação)? Pois é, num mesmo instrumento com várias antenas diferentes podemos obter diversas tocabilidades. Até agora, utilizo apenas 2 antenas diferentes no RDS, quando quero obter tocabilidades específicas para determinados tipo de música ou registro. Mas isso você vai descobrir na prática experimentando e criando suas antenas - não vou deixar uma bula por aqui. Normalmente a antena de "notas" que vem com o instrumento, seja ele qual for, é só uma sugestão, as demais possibilidades ficam por sua conta, dependendo de seu estilo ou necessidade. Utilizo uma antena de rádio comum, telescópica (daquelas dobráveis, que a gente encolhe e estica), no RDS para obter alguns efeitos especiais, essencialmente no extremo agudo. Faça seus testes. Só não vale ficar parado olhando pro theremin.

Pra quem lê inglês, segue uma dica de leitura sobre antenas temperadas ou mais devidamente afinadas, de acordo com as faixas de frequência do theremin:
http://www.oldtemecula.com/theremin/

CUIDADO!
Ao se aproximar do theremin, o som deve ficar agudo, e ao se afastar, grave. Se o campo elétrico estiver muito comprimido, pode ser que tenha um "buraco" no espaço onde não sai som algum, e, mais distante, há um campo reverso, no qual, quanto mais você se afasta, mais agudo fica. Fuja dele. A única região do campo elétrico que devemos utilizar, a única em que é possível fazer música, é chamada zona positiva, na qual o agudo fica perto da antena e o grave fica distante. Caso você se distancie do theremin e encontre um lugar ou "buraco" que não emite nenhum som, é o que chamamos de zero beat / batida zero, e deve ficar logo ali nas suas costas. Às vezes mais distante ainda você encontrará um campo invertido, chamado zona negativa, em que o grave fica avante e o agudo mais distante do theremin. A zona negativa é totalmente inutilizável - a não ser que você tenha construído um theremin especialmente reverso, algo que eu nunca vi funcionar decentemente em todos esses anos de pesquisa. Thomas Grillo fez uma videoaula legal sobre isso [EN-US]: http://www.youtube.com/watch?v=79PYEhQ5Njk

Nenhum comentário: